Degustando o verbo

Globalização Comunicacional e Transformação Cultural

O desenvolvimento cada vez maior e mais veloz da tecnologia da informação realiza o desejo do homem de aproximar cada vez mais as culturas. Entretanto, essa proximidade gera disputas mais complexas, transformando ainda mais o jeito de comunicar. Ou seja, por mais que a virtualidade permita a aproximação territorial, ela também cria uma necessidade de demarcação e expressão individual dessas culturas.

Atualmente, o que se vê é o nascimento de uma cultura mundial que, por mais que alcance todos os grupos de indivíduos, não se sobrepõe às culturas locais individuais, porque estas possuem raízes sólidas no cotidiano do homem pertencente a ela. Mais do que homogeinizar a cultura mundial, a Globalização amplia a troca de informações, de exposição daquilo que cada cultura possui como único, ímpar.

As informações correm de um lado para o outro, transformam pessoas, impactuam indivíduos mas não modificam sua origem. Ela alcança novas fronteiras justamente pela necessidade de expressão daquilo que lhe é nato. Nesse processo se altera o sentido de cidadania, como bem diz O. Ianni:

De tanto crescer para fora, as metrópoles adquirem características de muitos lugares. A cidade passa a ser um caleidoscópio de padrões, valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, etnias e raças. Distintos modos de ser passam a concentrar-se e a conviver no mesmo lugar, convertidos em síntese do mundo.

Dentro dessas cidades surgem fronteiras causadas pelo aumento das diferenças em espaços limitados. Enquanto o alcance de informações de outras culturas e a interação com elas são posse de poucos, daqueles que gozam de condições financeiras de subsidiar a informática necessária para esse intercâmbio de informações, existem aquelas que não tem poder aquisitivo para sustentar essa maneira de interagir. Estas últimas ficam concentradas no espaço cada vez mais limitado diante do avanço da tecnologia de informação.

 

Pro lado de cá: países sulamericanos

O efeito da Globalização comunicacional atinge com mais propriedade os povos e países mais jovens, que se compõem pela miscigenação cultural de raças. São culturas mais frágeis por terem raízes em diversas localidades; a cultura mundial apresentada pelos mass media faz necessária a busca por modos de sobrevivência das culturas tradicionais. Aquelas que não dominam as ferramentas dominantes acabam sendo extintas, por isso, hoje encontramos povos que antes eram distantes da realidade evolutiva da comunicação se envolvendo com o sistema. É o caso, por exemplo, dos índios no Brasil. Algumas aldeias indígenas já passam ou passaram pelo processo de inclusão digital.

Há também a inversão de processos: se os camponeses buscavam às cidades em tempos passados, hoje, as cidades seguem na contramão para trazer informações práticas daquilo que elas conhecem na teoria. Mais do que uma questão de mercado, está relacionado ao acesso à informações, conhecimento.

Nessa transformação cultural das cidades, cabe também falar sobre as tribos dos mais variados tipos formadas por jovens. Estes que são espelho da transformação que a sociedade como um todo está vivenciando. Dentro de pequenos universos criados a partir de preferências e opções, os jovens se organizam em grupos “alinhavados” pelas empatias de alguns indivíduos. Essas relações são mais frágeis no que diz respeito à consistência da ideia, porém mais resistentes por sua flexibilidade.

 

As tecnologias também influenciam os sistemas educacionais. Os jovens tem seus modos particulares de aprender, geralmente, diferentes dos professores de ensinar. Isso porque boa parte (dos professores) ainda é apegada aos métodos em que foi ensinada e tem costume de ensinar.

A comunicação também desempenha papel fundamental na preservação das culturas mais tradicionais. Aquelas que são estimadas apenas para conservadorismo acabam criando antipatia naqueles que já compreendem e aceitam os novos costumes.

 

O que abre espaço para um debate muito importante acerca da valorização cultural com relação aos valores de mercado e o papel da comunicação nisso. O que se vê atualmente é o uso limitado das propriedades da comunicação que acaba servindo apenas como um instrumento de publicidade daquilo que já é consenso de uma minoria dominadora. O mercado mundial acaba ditando as regras e as informações que a comunicação vai transmitir. Só se transmite pelos Mass Media aquilo que for trazer retorno financeiro.

Por isso a importância de espaços públicos de comunicação como os canais de televisão e rádio comunitários. São estes espaços que fortalecem a cultura das maiorias dominadas ou das minorias étnicas excluídas. A comunicação desempenha melhor papel nessas comunidades porque realiza de fato a comunicação com troca de informações que valorizam o indivíduo e sua cultura de forma que o diferente também aceite aquela valorização com respeito.

Se a comunicação em todos os meios exercesse essa função social de expressar a cultura plural – realmente plural, diversificada – dos indivíduos, a solidariedade entre povos e comunidades seria cada vez mais presente na nossa realidade. Porém, o que vemos de plural hoje são muitos canais com o mesmo conteúdo – sem qualidade social. Mas isso é debate para uma outra ocasião.

Síntese do capítulo:

Globalização Comunicacional e Transformação Cultural, de Jesús Martín-Barbero do livro Por Uma Outra Comunicação (Recomendo a leitura)

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