Prosa e outras autorias

Para além da Casa Grande e da Senzala

Texto publicado no blog Casa dos Autores

Há quatro anos trabalho em um campus da Universidade Federal de
Sergipe que faz parte do programa de expansão do Governo Federal em
Itabaiana localizado no agreste sergipano. Nestes últimos oito anos
foram criados cerca 130 novos campi de Universidades Federais em todo
o Brasil. Em quase sua totalidade, esses novos campi foram implantados
em cidades do interior do país.

Hoje o Campus de Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe possui
100 professores efetivos. Esse corpo docente é formado,
majoritariamente por professores doutores. Os mestres representam uma
outra parte significativa dos professores. Pouquíssimos são apenas
graduados. Pode-se dividir esse grupo de profissionais entre os mais
jovens, recém doutores e mestres, e doutores e mestres que há mais de
uma década trabalhavam na iniciativa privada. Enquadro-me entre esses
últimos. Por 16 anos trabalhei em instituições privadas de ensino
superior. O motivo principal que me levou a participar dos cursos
públicos para docente nas Universidades Federais foi o fato das
instituições privadas terem começado um processo sistemático de
demissão de doutores. Esse quadro negava, e ainda nega, o princípio
básico de que se deve estimular a qualificaç ão profissional, no caso
o doutoramento…

O campus de Itabaiana conta atualmente com aproximadamente 2500
estudantes e em agosto de 2010 formamos as primeiras turmas de seus
cursos de graduação. É importante que se diga, FORMAMOS as primeiras
turmas. Muitos desses alunos passaram pelos programas de Iniciação
Científica, Extensão e Monitoria da UFS. Espera-se, com isso, ir muito
além de um simples diploma de curso superior. Para se ter uma idéia da
importância desse feito, em 2000 praticamente 50% da população rural
do Estado de Sergipe era formada por analfabetos funcionais e mais de
70% dos pais dos alunos que ingressaram no Campus de Itabaiana em 2006
eram analfabetos.

Tenho esperança de que a presença da Universidade Federal de Sergipe
em Itabaiana contribua, em médio e longo prazo, para aumento
significativo do nível de especialização e capacitação da mão-de-obra,
mas também, para a diminuição do número de homicídios, da violência
contra a mulher e contra a criança e para o desenvolvimento e
consolidação de uma cultura democrática na região do agreste
sergipano.

Devo ressaltar que os investimentos públicos para a implantação do
campus de Itabaiana, cerca de 10 milhões de reais, tem sido objeto de
intensa e rigorosa fiscalização do próprio governo federal por meio da
Controladoria Geral da União (CGU) e de órgãos externos, como o
Tribunal de Contas da União (TCU).

Como diretor do Campus, tenho um número de celular e um cartão
corporativo. O primeiro utilizo para contatos profissionais e o
segundo para gastos emergências essenciais para a manutenção do
campus. Minha conta limite do celular é de 100 reais e quando
ultrapasso esse valor pago a diferença diretamente na conta da união.
O uso do cartão corporativo é ainda mais restritivo. Os 1.600 reais
que o campus dispõe (800 para compras e 800 para serviços) seriam
impossíveis de serem usados em razão das restrições legais se não
tivesse uma equipe formada por um contador e um administrador
trabalhando em conjunto na gestão desses gastos.

Esses detalhes são importantes para oferecer um contraponto em relação
à idéia generalizada a respeito da corrupção do governo federal.
Nenhum ato de corrupção ou de desvio de dinheiro público é
justificável, mas fico me perguntando o que seria de todos esses
investimentos do governo federal na educação superior nos últimos 8
anos sem que esses mecanismos de controle, parte deles do próprio
governo federal, não existissem. Ou seja, esse mesmo governo que é
acusado de corrupto foi que o intensificou a atuação de órgãos de
fiscalização. Com base em minha experiência pessoal posso dizer que os
investimentos públicos federais tem sido acompanhado pelos
necessários, ainda que falíveis e insuficientes, mecanismos de
controle e fiscalização.

Relato essa experiência porque sei que muitas pessoas para quais
enviarei esse texto não conhecem de perto a realidade que hoje eu
vivo. Muitos dos meus ex-alunos e colegas de trabalho de São José do
Rio Preto, Catanduva, Fernandópolis, Mirassol e Pereira Barreto no
interior do Estado São Paulo tem acesso a realidade do nordeste
brasileiro apenas por meio da imprensa ou em viagens de turismo. Por
outro lado, percebo um desejo e uma tendência de negar o fato que o
Brasil é desigual por motivos históricos e estruturais e de atribuir
as causas da pobreza, da violência e da falta de perspectivas de
futuro a motivos pessoais e individuais.

Nessa mesma linha, é com indignação que vejo que parte da oposição à
candidatura de Dilma à Presidência da República, em todas as regiões
do Brasil, inclusive em Itabaiana, tem como únicos fundamentos o
preconceito e a desinformação.

Quero deixar claro que não que votar em Serra não é um crime ou o fim
do mundo. É uma opção e um direito no contexto da democracia. O
incomodo tem a ver com os argumentos, ou a falta deles. Por exemplo,
as Igrejas tem feito campanha contra a Dilma por ela ter,
supostamente, se declarado a favor da discriminalização do aborto. Ou
seja, a candidata teria se posicionado, se realmente o fez, a favor do
aborto deixar de ser um crime. Isso não quer dizer que ela,
pessoalmente, seja favorável ao aborto. Mesmo que ela fosse, o
presidente da república, na democracia, não tem como fazer valer sua
opinião porque a democracia é o reino das leis e as leis dependem dos
poderes instituídos. Discriminilizar o aborto não seria obra apenas do
executivo, mas também do legislativo e do judiciário. Gostaria que o
Serra se pronunciasse claramente a esse respeito, principalmente,
porque ele se diz um especialista em saúde pública.

Outro preconceito veiculado nos bastidores da campanha é que Dilma é
homossexual. Particularmente defendo que a orientação sexual é assunto
de fórum íntimo e pessoal. Do mesmo modo, compartilho com o princípio
segundo o qual a competência e o caráter das pessoas independem do
fato de serem mulheres ou homens, homossexuais ou heterossexuais. E o
Serra como se posiciona a respeito de tema?

Tenho ouvido que Dilma é bandida. Creio que isso esteja associado ao
fato de Dilma ter sido fichada e presa durante o Regime Militar. Neste
caso, existem várias possibilidades de interpretação. A primeira, com
o qual discordo e me oponho, é o ponto de vista a partir do qual se
faz essa afirmação. Isto é, se olharmos do ponto de vista do Regime
Militar, de seus governos e das idéias e princípios que defendia, de
fato, a Dilma pode ser vista com uma bandida. Afinal, ela se opôs a
Regime Militar e ao Estado Ditatorial e por isso ela foi presa e
torturada. Se você é a favor do Regime Militar e contra a democracia
então, tudo bem, a Dilma é uma bandida mesmo.

Mas existe outra possibilidade de pensar a prisão de Dilma. O Regime
Militar implantou um Estado Ditatorial sem liberdades e garantias para
o cidadão. Contra essa situação muitas pessoas lutaram, muitas foram
presas e torturadas, como a Dilma; outras exiladas, como o Serra; e
outras ainda, mortas. Dessa perspectiva, a Dilma não é uma bandida,
para mim, nesse aspecto, ela é um exemplo, uma heroína. Preservou sob
tortura o nome de colegas de militância e luta contra uma ditadura que
afetava não apenas a vida dela, mas de muitos brasileiros. Gostaria de
ouvir da boca do Serra se ele, como ex-exilado, também acha a Dilma
uma bandida…

Uma última confusão (para não dizer mentira) é que Dilma não governará sem Lula.

Também fico pensando sobre isso. Acredito sinceramente que a Dilma tem
qualidades técnicas e políticas para exercer a chefia do executivo
brasileiro. Por outro lado, não se pode deixar de notar que a questão
não é apenas o nome de uma pessoa. O foco, perdido, deve estar nos
projetos políticos para o Brasil.

Nesse aspecto vejo uma diferença substancial entre o projeto do PT e
seus aliados e o do PSDB, DEM e seus aliados. A diferença pode ser
ilustrada pelo crescimento do número de Universidades Federais e de
seus Campi por todo o Brasil durante o governo Lula em contraposição o
estado de calamidade que as mesmas universidades ficaram ao final do
governo do FHC. O curioso é que o presidente intelectual quase
destruiu as universidades federais e o presidente considerado
analfabeto as ressuscitou.

Em resumo, eu diria que o PSDB, DEM e seus aliados, representados por
Serra, tem um projeto nacional elitista. Até acredito que eles pensam
nos pobres. Mas eles pensam nos pobres como pobres, isto é, como uma
parcela da sociedade que deve ser amparada e assistida, mas para
continuarem a serem pobres para que outra parte da sociedade, bem
menor, possam ter os benefícios da profusão dos bens e da sociedade de
consumo. Isto é quase uma reedição da velha estrutura social
brasileira baseada na separação entre a Casa Grande e a Senzala. É
como um aluno meu disse certa vez, “professor, como pode existir
ricos, se não existir pobres…” Ele não estava sendo irônico.

O projeto do PT e seus aliados, representados por Dilma é diferente. É
o projeto que leva universidade pública para o interior do país, para
os filhos de analfabetos, é o projeto que cria esperança e expectativa
de um mundo diferente, menos desigual e, por isso, melhor. Nesse
projeto a pobreza não é condição para a riqueza, o analfabetismo ou a
baixa escolaridade não são condições para o ensino superior público e
de qualidade. É esse projeto que oferece condições para romper com a
separação entre a Casa Grande e a Senzala … É com esse Brasil que
sonho e pelo qual luto diariamente morando e trabalhando em Sergipe em
sala de aula, realizando pesquisa e projetos de extensão e dirigindo
um campus da UFS no agreste… Por tudo isso e por acreditar que o
caminho aberto por Lula é o melhor, mais justo, mais democrático é que
defe ndo o voto em Dilma.

Universidade Federal de Sergipe
Departamento de Educação – Campus Itabaiana
Núcleo de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais – NPPCS
Programa de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente

Anúncios

Um comentário em “Para além da Casa Grande e da Senzala

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s